por Milton Bigucci
Está tramitando na Câmara Federal mais um projeto, infelizmente, já aprovado no Senado Federal, em abril de 2009, de atentado à Constituição Federal e ao direito de propriedade do cidadão pátrio. Trata-se da PEC (Projeto de Emenda Constitucional) 351/2009, a PEC dos precatórios, que permite que os precatórios dos imóveis desapropriados sejam pagos pelos municípios ou estados quando houver recursos disponíveis para esse fim. Um imóvel desapropriado deverá ser pago pela sistemática de leilão. Fala-se em deságio de mais de 50% do valor do imóvel.
Como normalmente, se um cidadão tiver um imóvel desapropriado ele vai esperar mais de uma dezena de anos para receber o que vale, imagine no leilão. O cidadão receberia bem menos, para receber antes, em um verdadeiro confisco de propriedade.
A lei em aprovação fala em dar melhores condições de pagamentos de dívidas judiciais (precatórios). Os prefeitos estão sorrindo a toa. O que menos importa é se o dono legítimo do imóvel desapropriado vai receber menos e no tempo que os prefeitos quiserem, em nome do calote.
Está havendo uma verdadeira corrida a Brasília, para agilizar o projeto, por parte de centenas de prefeitos que para lá vão com dinheiro público de viagem e estadia. Para não pagar o que devem ou pagar menos, vale tudo.
Ao invés de reduzir os gastos públicos de suas administrações, não dar empregos a correligionários incompetentes, inchar a máquina pública, é melhor dar calote em quem tem direito de receber. Em qualquer país civilizado e politizado os autores dessa lei seriam presos sumariamente.
É a “cara de pau”. Os precatórios de maior valor sairiam da fila e ficariam para quando Deus quiser.
A justificativa: seriam pagos primeiro os pequenos valores dos aposentados e os maiores iriam para o leilão, transformando uma dívida certa num jogo de lances financeiros. Ora os municípios tiram a propriedade de alguém e pagam quando puder e o que quiser. Assim é o leilão. Absurdo e próprio de um país de quarto mundo. Eu pensei que não fosse mais o caso do Brasil essas atitudes de “levar vantagem” e confisco.
Os prefeitos fizeram as dívidas, não pagaram e deixaram para os próximos prefeitos que não querem pagar e assim vai. Os gastos públicos continuam aumentando com empregos para os amigos e as dívidas sem pagar.
A OAB está fazendo um belo trabalho na defesa da Constituição e dos credores e contra os devedores relapsos, porém parece que a população e parte das lideranças nacionais estão mudas. Está faltando um pouco de indignação.
Trata-se da defesa do direito de propriedade.
É muito triste, mas é o que está acontecendo. Esperamos que a Câmara Federal esteja alerta e não aprove essa insanidade jurídica.
MILTON BIGUCCI é presidente da construtora MBigucci, presidente da Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC, Vice-Presidente do Secovi, Diretor do Departamento de Construção Civil da FIESP, autor dos livros “Caminhos para o desenvolvimento”, “Somos todos responsáveis – crônicas de um Brasil Carente” e “Construindo uma sociedade mais justa”, e membro da Academia de Letras da Grande São Paulo.